Após fim da Copa do Mundo, Didá quer manter apoio à seleção feminina para 'fortalecer a luta'
26/06/2019 15:45 em Música

Foto: Divulgação

A Didá Banda Feminina, com sua percussão, foi responsável por animar os intervalos dos jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo Feminina de 2019. Já conhecido e reconhecido internacionalmente, o grupo ganhou mais projeção com a participação nas transmissões oficiais. Mas foi um erro que ampliou ainda mais esse alcance. 

 

A banda, composta apenas por mulheres, foi fundada há 25 anos pelo Mestre Neguinho do Samba, criador do samba reggae. "O Neguinho tem um papel fundamental, não só para a música, mas para a política e para o movimento negro da Bahia. Quando ele pensou na Didá, grupo só para mulheres, muitos chamaram ele de doido. Mas ele dizia para mim e para as meninas que a ideia que ele tinha desde menino de mãe, tia, irmã era de muita força. Então ele acreditava no grupo", contou Viviam Caroline, diretora da Didá. 

 

Viviam revelou que Neguinho do Samba, ao criar a Didá, estava fazendo um preenchimento de uma "lacuna histórica", que inviabiliza o corpo e o discurso da mulher negra. "É como se nós não tivéssemos potencialidade ou vontade de fazer algo. Hoje eu caracterizo a Didá como uma tecnologia de resgate. Ela é um dispositivo que a gente aciona para se posicionar, para elaborar uma narrativa, para dizer quem nós somos, como nós nos vemos e não como os outros vêem". 

 

Com cerca de 80 integrantes femininas e sem contar mais com a presença física de Neguinho, que faleceu em 2009, a banda realiza um trabalho não só de fortalecimento das mulheres, mas também de preservação do trabalho e da memória do mestre. 

 

Durante a transmissão da TV Globo da primeira partida do time brasileiro, a Didá foi chamada pelo narrador Galvão Bueno de "Olodum feminino". "O Galvão cometeu uma gafe, mas que foi revertida em acesso", disse Caroline. Após o erro cometido pelo jornalista esportivo, muitas mulheres decidiram realizar publicações para corrigir a fala do apresentador. Inconformadas, as fãs do grupo marcaram as redes sociais da Didá e explicaram a diferença do grupo em relação ao Olodum. "Antes que a gente corresse para se defender, tinham centenas de pessoas fazendo isso, ligando e comentando nas redes sociais. Nós só pensamos: ‘que lindo, que rede bonita de proteção que aconteceu com a Didá’. Então, para a Didá enquanto banda e instituição, foi uma carinho enorme", disse Viviam.

 

 

"Todo mundo estava na defesa de um trabalho de 25 anos e as pessoas ficaram aborrecidas, falando: ‘não é possível que as meninas estão aí há tanto tempo e o cara não reconheça isso’. E a gente sabe que ele (Galvão) recebeu o material com tudo certinho. Então de repente ele faz uma comparação... e nada contra o Olodum, nós o admiramos muito, nada contra mesmo, mas por que para ele o único signo de estar fazendo aquela apresentação era de um grupo masculino? Nós sabemos que ainda existem essas amarras no pensamento dele e de tantos outros. A grande lição disso tudo foi no acesso, na rede de proteção e na força da internet. Nossas alunas, até as que moram em outros países, sinalizaram o erro nas redes sociais. Foi um presente para a gente, os seguidores na conta da Didá subiram e até começaram uma hashtag chamada 'Somos Todas Didá'”. 

 

A diretora da banda destaca que a banda já vem apoiando a seleção feminina desde os Jogos Olímpicos do Rio 2016 e pretende manter a tradição com as próximas Copas do Mundo. "Foi uma experiência boa, mandamos um vídeo mostrando a nossa torcida, porque pensamos que o que elas passam no esporte não é muito diferente do que nós passamos com a música. Cada um no seu universo, enfrentandos suas dificuldades e sobretudo somos nós por nós. Nós, mais do que qualquer outro grupo, entendemos as dimensões dessas dificuldades".

 

Viviam afirma que esse momento em que a imagem feminina está ganhando mais destaque é importante principalmente pelo fato de poder "ensinar algumas coisas aos homens, porque eles foram educados em uma circunstância de machismo", além de ceder espaço para todas as mulheres que estão ligadas ao esporte de uma forma geral.  

 

"Agora a gente não quer mais interlocução. A gente quer que a seleção seja mais apoiada, que os salários se equiparem, que existam treinadoras, narradoras... Porque as mulheres têm competência para todas as áreas do mercado de trabalho. Então eu acho que, mais do que nunca, esses jogos serem veiculados nos canais abertos, ter um número maior de pessoas assistindo, é uma conquista do nosso meio de mulheres, mesmo que ainda precise melhorar", aponta a diretora. 

“O futebol nesse momento é uma vitrine para as mulheres que estão em todas as outras áreas do esporte, porque a gente sabe como é difícil. Até porque esse corpo feminino encontra preconceitos, abusos, violências, a gente sabe bem o que aconteceu com a jogadora francesa [Wendie Renard, que sofreu ataques racistas por causa do seu cabelo]. Então, ao mesmo tempo que a gente celebra, a gente também tem uma imagem muito nítida do que ainda precisa ser conquistado. Mais do que tocar, e ter a parte da torcida, tem uma construção política acontecendo no mundo, a nossa ação de tocar é para fortalecer essa luta”, finalizou.

Fonte: Bahia Notícias 

 

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